
Em poucos meses, a inteligência artificial deixou de ser um assunto restrito a especialistas e passou a ocupar espaço recorrente no noticiário, nos eventos corporativos e nas conversas não só de executivos e profissionais da área, mas na boca de toda a população. Por conta disso, quase toda empresa tem algo a dizer sobre o tema, quase todo líder menciona IA em algum momento e quase toda comunicação institucional parece precisar encaixar a tecnologia em sua narrativa.
O excesso de menções, no entanto, não trouxe necessariamente mais clareza. Pelo contrário: expôs um problema cada vez mais visível: o discurso sobre inteligência artificial está se tornando repetitivo, previsível e pouco informativo.
O movimento é compreensível. Quando um tema ganha centralidade global, há uma corrida natural para não ficar de fora da conversa. O risco, no entanto, surge quando essa presença acontece sem reflexão, contexto ou diferenciação. Expressões genéricas, promessas vagas e afirmações amplas sobre eficiência, inovação e futuro começam a se acumular, até que uma fala se torne indistinguível da outra. Nesse cenário, a inteligência artificial deixa de ser um diferencial e passa a funcionar como ruído.
A imprensa percebe esse esvaziamento rapidamente. Jornalistas que acompanham o tema com atenção já não se interessam por declarações que apenas confirmam o óbvio ou repetem tendências amplamente conhecidas. O que passa a gerar valor são discursos capazes de explicar como a tecnologia impacta decisões reais, transforma processos específicos e impõe dilemas concretos. Falar de IA, hoje, não é mais sobre mostrar que a empresa está atualizada, é sobre demonstrar maturidade na forma de abordar um tema complexo.
Há também uma expectativa crescente em relação às lideranças. Executivos são chamados não apenas a endossar o uso da tecnologia, mas a contextualizá-la. O que muda no modelo de negócio? Quais escolhas estão sendo feitas? Onde estão os limites, os riscos e as responsabilidades? Quando essas respostas não aparecem, o discurso soa frágil, mesmo que tecnicamente correto. A repetição, nesse caso, não protege, mas expõe.
Outro efeito colateral desse discurso padronizado é a perda de identidade. Ao tentar se encaixar em uma narrativa dominante, muitas marcas abrem mão de sua própria história, de seu setor, de suas especificidades. A IA passa a ser apresentada como um fim em si mesma, e não como uma ferramenta inserida em uma estratégia maior. O resultado é uma comunicação que parece atual, mas não diz muito sobre quem a empresa é ou como ela pensa.
Marcas e executivos que conseguem se diferenciar nesse cenário fazem um movimento inverso. Em vez de partir da tecnologia, partem do contexto. Falam menos sobre tendências amplas e mais sobre decisões concretas. Reconhecem limites, compartilham aprendizados e assumem que nem todas as respostas estão prontas. Esse tipo de discurso, longe de parecer fraco, tende a gerar mais credibilidade justamente porque foge do automatismo.
O fato é que o debate sobre inteligência artificial não vai desaparecer em 2026. Pelo contrário, tende a se aprofundar e a se tornar mais exigente. Nesse ambiente, repetir o mesmo discurso não garante presença qualificada no noticiário, nem posicionamento de liderança. A diferença estará cada vez mais na capacidade de oferecer leitura, nuance e responsabilidade. Não é a menção à tecnologia que constrói autoridade, mas a forma como ela é integrada à narrativa da empresa.
No fim, talvez o desafio não seja falar mais ou menos sobre inteligência artificial, mas falar melhor. Menos slogans, mais contexto. Menos promessa, mais decisão. Em um cenário saturado de discursos semelhantes, a originalidade não está em ser o primeiro a falar, mas em ser um dos poucos capazes de dizer algo que realmente faça sentido.